Cultura

“Ninguém me escuta na América”

As traduções da obra de Jonathan Franzen têm em Portugal uma razoável legião de fãs. Esteve em Lisboa, aonde já não vinha há 30 anos, e falou durante 64 minutos sobre a sua inspiração: a raiva.

Se o leitor desejasse ver uma personagem de romance tornar-se realidade à frente dos seus olhos, bastava-lhe ter ouvido ontem o escritor norte-americano Jonathan Franzen na FLAD. A personagem – ou antes o protagonista – está esculpida após apresentações públicas por todo o mundo e a passagem por Lisboa não lhe acrescentou nenhum adereço, a não ser alguma paz de espírito para ler umas páginas de George Eliot. Aliás, essa revelação sobre a escritora britânica (1819-1880) foi para alguns o momento mais desinteressante de uma interessante sessão, afinal o “grande romancista americano” aproveitou para questionar a plateia sobre se conheciam a autora e esteve quase a pedir para que levantasse o dedo quem a tivesse lido…

Jonathan Franzen foi mais longe do que isto e desnudou-se parcialmente perante uma plateia que conhecia a maior parte da sua obra e, no fim, para sua grande felicidade, o questionou. “Se ninguém fizer uma pergunta ficarei magoado”, disse antes do período reservado aos presentes e no qual a entrevistadora, Isabel Lucas, foi tentando romper a blindagem de Franzen a questões sobre certos aspetos da América e dos seus livros.

O “ator” era bom e soube gerir os silêncios repetidos, cada vez mais demorados, como se estivesse a criar pausas próprias para a representação. Tal como repetir a palavra angry (irado, furioso, bravo) exaustivamente, reafirmando em pessoa uma das suas imagens de marca conhecidas de entrevistas. Diga-se que há 30 anos que Jonathan Franzen não vinha a Portugal, mas mesmo assim não foi preciso apresentá-lo à plateia que enchia o auditório. Não era preciso, disse quem o “apresentou”.

Começada a sessão, não foi também preciso esperar mais do que um minuto para comentar o estado da América atual, de uma forma peculiar: “Portugal é Lisboa, desculpe o Porto, mas nos Estados Unidos é diferente, não é só Nova Iorque.” Seguiu-se uma preleção sobre as literaturas das várias Américas; das velhas e novas escritas, respetivamente, a judia (Saul Bellow) ou a das novas gerações, as dos descendentes dos imigrantes. Continuou a tratar dessas “muitas identidades literárias” e… esqueceu-se da pergunta. Relembrado, Franzen avisa que conhece mal as literaturas das novas gerações – preferirá discorrer sobre David Foster Wallace – e opta por regressar ao velho tema do grande romance americano: “A definição do great american novel é uma parvoíce, é mais uma designação com intenções comerciais, até porque os romances devem ser contidos.” Nos segundos seguintes, Franzen consegue os primeiros sorrisos da plateia, ao dizer: “Só há um bom exemplo do great, é O Grande Gatsby, porque já o tem no título.” Quanto à questão do tamanho do grande romance, também Gatsby serve de exemplo: “Está tudo nele, o que mostra que se pode escrever um drama intenso em menos páginas e encontrar tudo aí.”

Vinha isto a propósito de um dia Franzen ter acreditado que iria escrever o grande romance americano: “Já esteve nos meus planos, mas cresci e vi que era outro o meu interesse.” Vai daí, debatem-se os seus títulos curtos e ambíguos. Interrompe: “Correcções (2001) é uma expressão muito usada, como é o caso das operações da bolsa, e dias antes do seu lançamento houve mais uma grande correção: o 11 de Setembro.” Liberdade (2010) é outra história: “Quando ouvi Bush falar de como os terroristas detestavam a nossa liberdade, encontrei logo o título.” Quanto a Purity (2015), diz, “tem algo de profético, mas também do Tea Party e do islão que quer ser purificador”. Remata: “O que está por trás dos títulos são histórias muito longas.”

Chega a hora de falar de humor, mas Franzen é claro: “Sou um escritor sério.” Volta a interromper duas vezes pois o chilrear de um pássaro entra pela sala: “É muito insistente.” “Voltemos ao humor… talvez não seja boa ideia porque se eu não tiver piada pareço um idiota.” Em tom confessional dirá: “Obrigado por me ouvirem. Ninguém me escuta na América.”

Chega o minuto Trump: “Em política só é aceitável liberdade de expressão e um retrato do estadista do tamanho de um selo.” Liberdade de expressão, explica, é algo que Trump abusa, tal como twittar demasiado. “O que me preocupa nele é ter os códigos das armas nucleares e causar prejuízos a nível ambiental”, refere. E o minuto Trump acaba rápido: “Adoraria não falar mais deste assunto.”

O tema passa a ser a raiva: “Não sei porquê, mas sempre a tive. Sou branco, homem, das elites…” Mesmo assim, esclarece, foi obrigado a frequentar um curso online de condução porque prevaricou. Insiste: “Sou uma pessoa zangada.” Uma zanga que se estende a quem não vive deste modo: “O Charles Schulz – o dos Peanuts, sabem? – era o melhor até mudar para a Califórnia. Aí, perdeu a graça.” Isto tudo porque receia deixar este estado de espírito: “Também estou menos zangado após o curso de condução.” Acrescenta: “Quando se está a escrever deve ser-se cruel.”

Não faltam temas, mas Franzen vai controlando o relógio. Porque escreve? “Pergunto-me isso desde que publiquei o segundo romance e o mundo não pegou fogo. Há pessoas que me continuam a ler e tenho de escrever livros bons para essa comunidade. Nem importa quão grande é. Gosto de acordar de manhã e saber que estou a escrever. Que parei no meio de uma frase e amanhã encontrarei a solução.” Antes de dar por terminada a sessão, diz que percebeu que ficou angry porque em casa os pais eram assim. Ainda fará elogios a Elena Ferrante! Para fechar, a pergunta é sobre os autores que mais o influenciam. Não responde: “Detesto esta questão. É preciso ter muita lata para dizer que essa é a última.”

[dn.pt, João Céu e Silva]

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