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Voos cancelados. “Faltei ao trabalho cinco dias.”

Ryanair. Deco já recebeu 150 mil pedidos de ajuda, maioria por indemnizações. Emigrantes portugueses sentem-se duplamente prejudicados

“Temos problemas devido às faltas no trabalho, porque não conseguimos um voo para regressar e falhamos também a nível pessoal, porque não podemos ir para casa”, desabafou Maria Silva, que se sente duplamente afetada com o cancelamento de mais de dois mil voos da Ryanair por falta de pilotos.

Maria trabalha em Londres há um ano e faz cerca de quatro viagens por mês a Portugal. Uma rotina que agora se alterou devido à decisão da companhia aérea , de nada lhe valendo a compra antecipada dos bilhetes. Os problemas começaram a ser sentidos na terça-feira: “Queria ir do Porto para Londres (Stansted). Recebi um e-mail sábado a dizer que o voo estava cancelado e que podia pedir reembolso ou remarcar a viagem sem custos acrescidos. Tentei imediatamente remarcar, sendo que a primeira disponível era para sábado [ontem] à noite. Foi essa que marquei, mas estou a faltar ao trabalho há já cinco dias”, explicou ao DN.

A sorte de Maria, como a própria comenta, é a de ter “uma chefe compreensiva” que lhe autorizou tirar dias de férias, mas a situação causou transtorno na empresa onde trabalha. “Tenho vários colegas, de outros países europeus, com o mesmo tipo de problemas”, salientou Maria, que aguarda resposta por parte da companhia aérea sobre a indemnização a que tem direito.

Madalena, outra passageira retida com cancelamento de voos, também desconhece se irá ser indemnizada. “Tinha viagem marcada para ir a um batizado a Paris e fiquei sem voo, no Porto. Ainda tentei marcar noutra companhia, mas os preços de última hora eram proibitivos”, explicou. A situação não é nova para esta passageira: “Há cerca de um ano, ia a um casamento, também em França (Tours), e o voo foi cancelado porque fecharam o aeroporto para obras. Acabei por marcar para Paris, pela Ryanair, mas paguei do meu bolso o aluguer de um carro para me deslocar à cidade de Tours a tempo de chegar ao casamento, já que os horários de comboio ou de autocarro não me permitiam chegar à hora pretendida. Estamos a falar de uma distância de 300 km”, contou. Até à data, Madalena não recebeu qualquer tipo de compensação, e só o aluguer do veiculo custou-lhe 400 euros. “Enviei um e-mail para a Ryanair a expor o que agora se passou e a relembrar o que se passou no ano passado, mas ainda não responderam.”

“As indemnizações podem oscilar entre 125 e 600 euros por passageiro e a aferição deste valor dependerá do percurso ou distância do voo e das horas de atraso à sua chegada”, explicou ao DN Sílvia Antunes, advogada especializada em direito aéreo. A especialista referiu ainda que “além destes montantes, o passageiro terá igualmente direito a uma chamada telefónica, alojamento e transporte para o alojamento (se colocado em voo no dia seguinte), comida e bebida”.

A Deco (Associação Portuguesa de Defesa do Consumidor) adiantou ao DN que os pedidos de ajuda “ascendem já aos 150 mil”. Número que deverá aumentar, já que há “muitas queixas diariamente”. “Os pedidos mais comuns de ajuda referem-se aos procedimentos para pedir indemnizações, mas também de consumidores que ficam retidos no estrangeiro”, contou fonte da associação.

O presidente executivo da Ryanair, Michael O”Leary, já admitiu que o cancelamento de mais de dois mil voos nas próximas seis semanas custou à transportadora cerca de 25 milhões de euros.

O”Leary também advertiu que poderá obrigar os pilotos da Ryanair a suspender as férias para aliviar a pressão sobre o trabalho e voltou a pedir desculpas aos mais de trezentos mil passageiros atingidos pela suspensão de cerca de 2% dos voos.

[dn.pt, Cynthia Valente]

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