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Cancro metastático da mama: A luta sem fim das “mulheres invisíveis”

Hoje, dia 4 de fevereiro, assinala-se o dia Mundial da Luta Contra o Cancro. Conheça o que está na origem da grande maioria das mortes por cancro da mama.

O Lifestyle ao Minuto aproveitou o mote do Dia Mundial da Luta Contra o Cancro para falar com vários especialistas e destacar o ‘culpado’ de 90% das mortes por cancro da mama.

Em 70% dos casos, o cancro da mama é detetado numa fase inicial, sendo algo relativamente simples de tratar e que permite que as pessoas fiquem bem.

Mas, infelizmente 30% dos pacientes com cancro da mama terão de voltar a lidar com esta realidade: “E quando volta, o cancro volta espalhado, é um cancro metastizado”, para o qual, “não há cura nem tratamento eficaz”, explica Lynne Archibald, presidente da associação Laço.

Em Portugal e em todo o mundo nenhuma mulher morre do cancro da mama em fase inicial, todas as mulheres que morrem do cancro da mama morrem de cancro da mama metastático

Luís Costa, diretor do Departamento de Oncologia do Hospital de Santa Maria e ‘group leader’ no IMM – Oncobiologia Translacional, explica que “quando o tumor é capaz de colonizar outros órgãos a partir do tecido de origem diz-se que metastizou. Um tumor que nasce na mama pode metastizar (enviar células que crescem nesse órgão/tecido) no osso, no fígado, no pulmão, no cérebro, por exemplo”.

Nesta circunstância, “existem muitas células tumorais na doente e provavelmente com características muito diferentes umas das outras pelo que se torna muito difícil encontrar um tratamento que elimine todas as células”.

Lynne Archibal destaca, por sua vez, que “em Portugal e em todo o mundo nenhuma mulher morre do cancro da mama em fase inicial, todas as mulheres que morrem do cancro da mama morrem de cancro da mama metastático”. Quando metastiza e atinge o estadio IV, “o cancro já transbordou e se espalhou. E para isto já não existe tratamento eficaz possível”.

Lynne conta que existem algumas coisas para tentar travar, parar temporariamente o cancro e controlar os efeitos secundários – por exemplo, é bastante comum o cancro da mama passar para os ossos e isso pode provocar muitas dores. Nestes casos há tratamentos para minimizar a dor que as metástases estão a causar. Infelizmente, não vão acabar com o cancro.

“Há ainda uma percentagem pequena de mulheres, cerca de 10%, em que no diagnóstico inicial já é detetado um cancro de mama metastático, estadio IV, e isso às vezes acontece em mulheres mais novas, que nem tinham idade de fazer mamografia (menos de 40 anos). É raro mas pode acontecer e neste caso é um choque tremendo”, contou Lynne em entrevista ao Lifestyle ao Minuto.

A especialista diz ainda que durante muitos anos todo o mundo pensou que a deteção precoce iria acabar com o cancro de mama metastático: “O conceito era detetar e eliminar o mais cedo possível os tumores e acreditava-se que essa deteção e tratamento no início ia acabar com as mortes”. Agora, “os cientistas perceberam, depois de muitos anos de rastreios e de tentativas para perceber porque é que o número de mortes não estava a baixar [atualmente mantêm-se entre as 1.500 e 1.600 mortes por ano], que o prognóstico final não tem a ver com as intervenções que vamos fazendo, tem a ver com a biologia original do tumor”.

Já Luís Costa explica a este propósito que os principais fatores de risco de cancro metastizado são: o tamanho do tumor à data do diagnóstico, a existência ou não de invasão nos gânglios linfáticos mais próximos, a diferenciação do tumor (G3 é pior do que G1), a existência de um elevado índice proliferativo nas células do cancro da mama e a ausência de recetores hormonais. A presença da oncoproteína HER2 é também um fator de risco para metastização.

Num cancro da mama metastático, a terapêutica médica – para controlar a população de células tumorais, impedindo o seu crescimento e se possível levar à sua regressão – é a principal linha de ação e pontualmente pode ser necessária a radioterapia ou a cirurgia, diz Luís Costa: “Com esta estratégia podemos aumentar a expectativa de vida das doentes e preservar a qualidade de vida (esta depende da nossa capacidade em evitar os sintomas do cancro e os efeitos adversos dos tratamentos)”.

Para o oncologista, “a emergência de resistência ao tratamento é o principal obstáculo ao tratamento do cancro da mama metastático”.

Lynne Archibald revela que 24 a 36 meses é a esperança média de vida que se costuma apontar, “mas isso é uma média e nenhuma mulher é uma média. Felizmente há muitas mulheres que vivem muito mais tempo do que isso” – algumas mais de uma década, comenta.

“Para todas as mulheres com cancro da mama metastático, a ciência é a esperança. As mulheres que têm agora este cancro esperam que nos próximos dois anos seja feita uma descoberta que ainda vá a tempo de as salvar, literalmente”, destaca Lynne.

Sérgio Dias, group leader no laboratório Biologia Vascular & Microambiente do Cancro do IMM, conta que no Instituto de Medicina Molecular estão a ser realizadas as seguintes investigações: De que forma o sistema imunitário poderá controlar o crescimento de ‘micrometástases’; que modificações metabólicas são específicas das células metastáticas; a utilidade da deteção e caracterização molecular de células tumorais circulantes como factores preditivos da formação de metástases; e identificação dos mecanismos moleculares envolvidos na metastização cerebral.

“Já se compreende com algum detalhe os passos que levam à formação de metástases, desde as modificações moleculares ao nível do tumor primário até à formação do ambiente favorável à metastização de diferentes órgãos. No entanto, ainda não é possível prever a formação de metástases pela falta de testes que detetem de forma fidedigna e sensível as células e/ou as moléculas envolvidas nesse processo”, elucida Sérgio Dias, revelando ainda que “algumas das possíveis futuras terapias poderão passar pela manipulação do sistema imunitário ou do metabolismo do cancro, por exemplo”.

A comunicação entre médicos e pacientes nem sempre é a mais eficaz e mesmo as associações especializadas falham por vezes na comunicação da gravidade específica dos cancros mais agressivos.

“Muitas entidades, associações e pessoas não querem falar do cancro da mama metastático porque é mesmo muito complicado”, frisa Lynne.

Para melhorar o conhecimento público, a Associação Laço partilha informações no seu site, financia projetos de rastreio e criou ainda a Bolsa Laço para apoiar a investigação e perceber a biologia dos tumores, caminhando no sentido de encontrar novas formas de combater o cancro.

“Nós acreditamos que há muitas mulheres em Portugal que não percebem exatamente o diagnóstico que têm. A nossa sensação é de que, às vezes, os médicos e profissionais de saúde dão as informações de uma forma muito suave, mas tão suave que possivelmente as pessoas realmente não têm noção de que o tipo de cancro que têm não tem solução. Nós percebemos a motivação, mas achamos que é uma informação que todos os doentes têm o direito de saber.”

Sabemos que neste momento há milhares de mulheres em Portugal a viver com cancro da mama metastático, mas são um bocadinho mulheres invisíveis, porque não conseguem juntar-se e falar, chamar a atenção, pedir mais ciência, mais apoio

As estimativas da Associação Laço apontam para que existam pelo menos 5 mil mulheres com cancro de mama metastático em Portugal, com um tempo de sobrevivência de três anos.

Por enquanto, as estimativas são apenas aproximadas, mas em breve será dado um passo muito importante: “Portugal vai finalmente ter um registo oncológico nacional. Até agora tínhamos registos regionais que funcionavam de formas diferentes”.

“Espero que com a passagem dos anos, com o acesso a informação e pelo respeito pela capacidade das pessoas de gerir as suas próprias vidas, todas as pessoas saibam exatamente o diagnóstico que têm e o que isso significa”, conclui Lynne Archibald.

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