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Superavit alemão: Planos de Berlim colidem com interesses da Europa

Alemanha registra pelo terceiro ano consecutivo superavit orçamental. Em 2016 o Estado teve lucros de 19,4 mil milhões de euros. Quase um terço desse dinheiro cabe ao Estado Federal que se recusa cumprir a lei destinando-o aos migrantes, mas recusa também investir na economia.
No Jornal 2 Miguel Szymanski diz que nesta questão o interesse da Alemanha colide frontalmente com o interesse de países como Portugal e de resto com os interesses da própria Europa.
As leis alemãs estabelecem que a parcela do superavit correspondente ao governo federal – 6,2 mil milhões de euros – deveria ser investida no fundo criado em 2015 para lidar com a crise migratória.
Até o momento o fundo tem quase 13 mil milhões de euros. As reservas praticamente não foram utilizados. Desta forma o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, quer usar o dinheiro excedente para reduzir as dívidas contraídas pelo Estado durante a crise financeira. Na visão do ministro, o pagamento dos débitos enviaria um sinal positivo aos parceiros internacionais.
“Na Alemanha chamam a esta política a do “zero Negro”. Equilibrar as contas custe o que custar” explica no Jornal 2 Miguel Szymanski, jornalista alemão que vive atualmente no nosso país e escreve sobre Portugal para a imprensa germânica.
O SPD, partido de oposição ao governo de Angela Merkel, quer que esse dinheiro seja investido na reparação de infraestruturas envelhecidas em todo o país. Miguel Szymanski acredita que essa política acabaria por beneficiar países como Portugal cujas empresas (principalmente de construção e metalurgia) passariam a ter trabalho e a exportar para a Alemanha.
“Wolfgang Schäuble vê-se a ele próprio, e é conhecido na Alemanha, como “Mestre Disciplinador”. A sua pedagogia musculada pode ter efeitos perversos”, lembra o comentador do Jornal 2 lembrando o crescimento dos populismos numa Europa que outro alemão, Martin Schulz, na hora da despedida da presidência do Parlamento Europeu, reconhece é fruto de “uma Europa injusta onde o rendimento não é bem distribuído, as multinacionais não pagam impostos e os cidadãos têm cortes em salários e pensões”.
Schulz deverá concorrer em setembro contra Angela Merkel nas eleições alemãs. A decisão final do socialista alemão só será tomada no final deste mês.
No Jornal 2 Miguel Szymanski diz acreditar que sem uma mudança de governo a política de não investimento vai continuar prejudicando com isso também a própria Alemanha.
Em 2015, o superavit foi de 20,9 mil milhões de euros, no ano anterior tinha sido de 8,6 mil milhões. Apesar do Estado Federal não usado nenhuma destas verbas para potenciar o crescimento do Produto Interno Bruto, o PIB alemão cresceu 1,9% em 2016, a maior expansão registada no país nos últimos cinco anos.
[João Fernando Ramos, Rui Sá – RTP]

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