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28 ensaiam união simbólica para enfrentar Trump

Emmanuel Macron desfez ideia de confronto com os EUA. Diretiva europeia para contornar sanções às empresas com negócios no Irão é uma arma a usar, mas pode não ter eficácia

Com empresas como a petrolífera francesa Total ou a de transporte marítimo dinamarquesa Moller-Maersk a ameaçar cessar operações no Irão, a Comissão Europeia lança hoje o processo para ativar uma diretiva com mais de 20 anos que permite às empresas europeias ficarem a salvo das sanções dos EUA contra Teerão e que não reconhece decisões judiciais norte-americanas em relação a essas empresas. Por outro lado, a UE reafirmou que vai manter o acordo com o Irão, desde que este cumpra a sua parte. Mas um dia após as duras palavras de Donald Tusk sobre Donald Trump (“com amigos como este, quem precisa de inimigos?”), a unidade europeia pode ficar apenas pelo simbolismo.

“Como Comissão Europeia, temos o dever de proteger as empresas europeias. Agora precisamos agir e é por isso que lançamos o processo de ativação do “estatuto de bloqueio” de 1996″, com efeitos a partir de hoje, anunciou o presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker. “Também decidimos permitir que o Banco Europeu de Investimento facilite o investimento de empresas europeias no Irão. A Comissão vai manter a sua cooperação com o Irão”, assegurou o luxemburguês em conferência de imprensa após uma reunião de líderes da UE em Sófia, Bulgária.

Mas segundo fontes das instituições europeias às agências Reuters e AFP, o efeito da medida pode ser apenas simbólico. Logo porque a diretiva 2271/96 – criada para contornar o embargo a Cuba, mas abandonada após acordo político com Washington – nunca foi posta em prática e não há certezas sobre a sua aplicabilidade. No Parlamento Europeu, o comissário Valdis Dombrovskis expressou as suas dúvidas: “O “estatuto de bloqueio” da UE pode ter eficácia limitada, dada a natureza internacional do sistema bancário e em especial a exposição de grandes bancos sistémicos ao sistema financeiro dos EUA e às transações em dólares americanos.”

Além das dúvidas sobre a eficácia da diretiva, as empresas que têm negócios com os Estados Unidos não querem arriscar outra medida, que é verem as suas operações anuladas com a maior economia mundial. “Com as sanções que os norte-americanos vão impor quem também tem negócios nos EUA não os pode fazer no Irão”, disse o administrador executivo da Maersk, Soren Skou, à Reuters.

Já a Total só admite avançar com um projeto de exploração de gás, avaliado em mil milhões de dólares, caso os EUA renunciem às sanções.

Emmanuel Macron fez questão, por seu turno, de separar as águas. “O presidente francês não é o presidente da Total. A minha prioridade não são os negócios ou as finanças no Irão”, declarou, após ter dito que a UE “não vai iniciar uma guerra comercial com os EUA devido ao Irão”, nem sequer tomar contra-sanções às empresas norte-americanas. “Não faria sentido.”

Os chefes de governo e de Estado signatários do acordo nuclear com o Irão (Theresa May, Angela Merkel e Macron) reuniram-se à margem da cimeira para discutir a decisão de Trump. “Os líderes reiteraram o firme compromisso de garantir que o acordo seja cumprido, tendo destacado a importância para a nossa segurança”, disse o porta-voz da PM britânica.

Arma à cabeça

O outro grande tema relacionado com os Estados Unidos discutido pelos líderes europeus no encontro de Sófia são as barreiras comerciais. Juncker disse que a UE está pronta para iniciar negociações sobre a abertura do comércio em algumas áreas, caso dos automóveis. E que também querem trabalhar em conjunto com Washington para a reforma da Organização Mundial do Comércio. Mas é condição que os EUA isentem de forma permanente as taxas alfandegárias ao alumínio e aço europeus. Como disse uma fonte de Bruxelas ao EU Observer, “não há negociações com uma arma à cabeça”.

[dn.pt, César Avó]

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