Comunidade Opinião

O movimento associativo ontem e hoje

O movimento associativo português tem raízes históricas profundas, tanto em Portugal , como na vasta diáspora lusa. Tanto dentro como fora do país, esses núcleos, onde o indivíduo se reencontra no colectivo identitário, primam sempre por qualquer característica que se reflecte na sua designação oficial.

A associação portuguesa pode ser uma “academia do bacalhau” ou “academia da espetada”, um centro cultural, desportivo, recreativo, um fórum, um clube, uma casa de apoio, um grupo, um rancho folclórico, uma associação empresarial, uma missão religiosa, uma paróquia, uma federação de associações, etc.

Estas associações surgiram em muitos países como resposta ou tentativa de resposta às reais necessidades dos indivíduos que aos poucos adquiriram a consciência de pertencerem a uma comunidade. E desde então se fez sentir a necessidade de haver dirigentes associativos, vendo-se estes confrontados com maior ou menor necessidade de formação e informação para atender aos problemas dos associados.

A emigração é uma realidade complexa com emigrados de longa duração, com emigrados temporários, enfim, com emigrados permanentes. As comunidades desenvolvem a convivialidade, a interajuda, a solidariedade, os projectos de natureza diversa em vários âmbitos. Nas comunidades, os indivíduos voltam à vivência da sua cultura, da sua língua, e mesmo os que mais sofrem de dificuldades na materialidade do seu quotidiano, encontram no seio da sua comunidade um conforto moral e ou alguma ajuda material que muitas vezes seria impossivel de outra forma.
Na era digital em que vivemos, no quadro duma globalização que se alastra, deu-se uma alteração profunda do perfil migratório entre 1960 e 1990. Portugal, país de emigrantes, passou igualmente a ser um país de imigrantes. Há hoje uma circularidade migratória em muitos países que provoca novos equilíbrios migratórios na mobilidade internacional e no quadro da internacionalização das economias.

A nova emigração portuguesa precisa de um acompanhamento mais atento. A integração e a inclusão de cidadãos nacionais faz sentido tanto no tecido económico do país de origem como no país de acolhimento, daí parecer acertado que haja um Programa Estratégico para dar um impulso às políticas migratórias com financiamento comunitário entre 2014 e 2020. O mesmo se diga em relação ao PEM – Plano Estratégico para as Migrações com uma rede de Pontos Focais de Acompanhamento do PEM. As migrações enfrentam hoje, no quadro da globalização, uma série de desafios relacionados com as novas tecnologias, com o empreendorismo inovador e abertura de novos mercados, por um lado, enquanto os trabalhadores, individualmente, têm de lutar pela integração pessoal, social, profissional e cívica por forma a acederem à cidadania activa, tanto no país de origem como na diápora, ou seja, na circularidade migratória.

As associações têm velhos e novos desafios pela frente. As novas vagas de emigração com forte presença digital e organização em rede, com profissionais de formação superior ( professores, psicólogos, luso-empresários, investigadores, estudantes, artistas, luso-eleitos em vários graus da política / administração, etc. ) podem, além de resolver os seus problemas, contribuir para qualificar mais os seus compatriotas mais antigos. E há sempre muitos problemas concretos nas comunidades à espera de solução, por exemplo em lares de idosos, no apoio domiciliário, na solidariedade para com os mais desprotegidos, para com os reclusos, os desempregados de longa duração, etc. Também a promoção da própria Língua e Cultura, a par da promoção da língua e cultura do país de acolhimento, são desafios de todos os dias na vida das comunidades.

Os conselheiros das comunidades e os dirigentes associativos devem andar mais atentos às novas dinâmicas. As associações por sua vez devem começar a apresentar os seus planos de actividade no prazo estabelecido pela lei ( 01 de outubro a 31 de dezembro ) no Consulado Geral da sua área para que este o torne presente à DGACCP.
A construção da nação continua desde a auto-construção fora do país à heteroconstrução das comunidades onde os emigrantes se integram (cf. Daniel Melo e Eduardo Caetano da Silva / orgs. Construção da Nação e Associativismo na Emigração Portuguesa, Lisboa: Imprensa das Ciências Sociais, 2010 ).

[Luciano Caetano da Rosa e Alfredo Stoffel

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