Opinião

A democracia em perigo

Temos assistido ao reacender da “guerra fria” sob a forma de ameaças comerciais, expulsões de pessoal diplomático, interferências nos processos de decisão

As eleições que decorreram na Rússia a 18 de março, sob a forma de plebiscito dada a ausência forçada do principal opositor, reforçaram o poder autoritário e populista de Vladimir Putin. Na China, as normas políticas foram alteradas para permitir a eternização no poder da atual liderança. Nos Estados Unidos, a deriva populista de Donald Trump pisa diariamente linhas vermelhas que pareciam inultrapassáveis numa das mais consolidadas democracias do mundo. Em plena União Europeia, partidos populistas e iliberais ganham terreno e governam mesmo na Hungria e na Polónia.

Que mais é preciso para lançar um alerta global? A democracia no mundo está em perigo e são precisas ações pragmáticas, corajosas, transparentes e eficazes para a salvar. No quadro antes descrito, e não obstante todos os impasses e dificuldades que vive internamente, a União Europeia (UE) é a potência mais bem colocada para liderar uma coligação internacional em defesa da democracia. A questão óbvia, além da prova necessária da consistência interna do bloco europeu, é identificar as armas que a UE pode usar neste combate.

Não serão armas convencionais ou mesmo de nova geração, como os instrumentos de guerra da informação que os adversários da democracia pluralista e participativa usam com total despudor e vantagem óbvia. As armas em que a UE ainda dispõe de vantagens são as armas do soft power. É a sua cultura, a sua diversidade, a sua identidade, a sua tradição e o seu enorme potencial comercial como maior mercado global.

A capacitação da UE para liderar um combate planetário pela defesa da democracia vai depender da consolidação de políticas internas fundamentais, designadamente da capacidade de usar os acordos comerciais de nova geração como agregadores de boas práticas e da política para a convergência, permitindo a todos e a cada um dos europeus sentirem-se mais comprometidos como o sucesso de uma estratégia ambiciosa de regulação geopolítica.

Temos assistido nos últimos dias ao reacender da “guerra fria” sob a forma de ameaças comerciais, expulsões de pessoal diplomático, interferências cruzadas nos processos de decisão através da uma cada vez menos disfarçada manipulação da informação com cobertura institucional.

Enquanto isto, no seio das famílias políticas pró-europeias surge cada vez mais exposta uma diferenciação estratégica entre os que assumem a sua identidade internacionalista e ambicionam travar o combate por uma globalização regulada, mesmo à custa da incompreensão imediata de algum eleitorado tradicional, e aqueles que em nome da proteção e conservação desse eleitorado se deixam tentar por estratégias de inspiração protecionista.

Nesta linha de fissura estratégica se jogará o papel da Europa no quadro da nova economia e geopolítica global e, em consequência, também o futuro do papel da UE na defesa da democracia no mundo.

Seremos globalistas com regras ou protecionistas com medo? Se vencer o protecionismo cobarde, o extraordinário projeto europeu será rapidamente arquivado nos anais da História. O futuro da democracia decide-se agora e a UE tem nele um papel determinante.

[Carlos Zorrinho, Eurodeputado]

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