Política

Rio rejeita bloco central e ataca geringonça

Novo líder do PSD promete uma “oposição forte”, mas continua a defender que as reformas estruturais implicam consensos

Os delegados de pé aplaudiram. Com estrondo. No discurso inaugural do 37.º Congresso do PSD, no pavilhão central da antiga FIL, Rui Rio acabava de lhes dizer que não existirá um bloco central em circunstância alguma e que o partido combaterá para ser o primeiro em todos os atos eleitorais,

Foram, aliás, os minutos finais, de um discurso longo e denso, que empolgaram os congressistas que ouviram, pela primeira vez, o novo líder falar dos desafios do partido, O calor na sala só subiu com idêntica intensidade quando Rui Rio envolveu Santana Lopes na sua vitória. As palmas também se fizeram ouvir quando agradeceu a Passos a missão cumprida no partido e no país. Rio disse o que todos o queriam ouvir dizer. Que vai liderar o partido para tentar ganhar todas as eleições, sem rebuços ou admissões de apoio a um eventual governo socialista no futuro. Num ataque feroz à geringonça, o novo líder do partido recordou ao PS que não ganhou as eleições e que a segurança da coligação de governo “em vez de ser de cimento armado, usa cartão e cola para segurar a sua consistência”.

Acusou ainda o governo do PS e de António Costa – sem nunca ter mencionado expressamente o nome do partido rival ou o do primeiro-ministro – de falhar e de governação à vista, destinada apenas a proveito próprio. “O governo cede à sua clientela, os parceiros da coligação parlamentar garantem a dita segurança. Quando toca a disciplinar um pouco as finanças públicas, os mesmos agitam os fantasmas da Europa e do grande capital.” Considerou ainda “ridícula” a redução do défice público de 2017 para 2018 de 0,1% ou 0,2% do PIB, de uma solução de governo que apenas “vive à boleia de uma conjuntura económica favorável”.

O novo líder do PSD profetizou ainda que com a aproximação das eleições de 2019 os problemas de consistência da coligação de governo serão maiores. Ao contrário do PSD, que nesse ano eleitoral “não dependerá de nada”, a não ser “de vencer” as eleições, sejam elas regionais, para o Parlamento Europeu ou para a Assembleia da República. “O PSD apresentar-se-á aos portugueses como um alternativa forte e credível a esta governação da extrema-esquerda”, assegurou, uma vez mais entre palmas.

Mas se não equacionou, como seria de esperar que não o fizesse, um eventual apoio parlamentar a um governo socialista minoritário – o que admitiu durante a campanha para a liderança do partido – também não fechou essa porta. A certeza que manifestou ao congresso, que o entronizará presidente do partido, é a de que a atual solução de governo não cuida do futuro de Portugal. E “gasta todos os bónus conjunturais que recebe para contentar os seus insaciáveis apoiantes parlamentares”.

Deu ainda exemplo de má governação ao voltar a criticar, ainda que implicitamente, o facto de o executivo não se ter batido para que um investimento da Google tivesse sido canalizado para o interior. Ao CDS, parceiro do PSD no governo de Passos Coelho, Rui Rio não dedicou uma única palavra.

Coerente, como sempre mostrou ser, o guião do seu primeiro discurso ao partido seguiu o que defendeu na moção de estratégia e na campanha às diretas do partido. É por isso que, e apesar dos ataques à geringonça, voltou à ideia de que é preciso consensos entre os partidos para resolver “um conjunto de estrangulamentos estruturais” no país, que “nenhum partido está capaz de resolver sozinho”. Enunciou essas reformas que sempre defendeu estruturais – do sistema político, da justiça, da governação – e a descentralização, a que apelidou de reforma do regime. “Fazer reformas com venerada obediência ao politicamente correto será condenar a própria democracia”, disse, ao mesmo tempo que reafirmou que tudo terá de ser feito para “prestigiar a função política”.

Voltou a Sá Carneiro, que disse seu farol, para reafirmar o primado de uma social-democracia moderna, atenta ao “povo” e aos seus problemas. De uma única penada disse num curto espaço de tempo a palavra “princípios” uma mão–cheia, conjugada com “valores” e “coerência”.

E naquele que tradicionalmente é um discurso para dentro do partido, Rio não se esqueceu dos militantes. Porque os partidos estão descredibilizados, o PSD “não tem direito à passividade”. Avisou os senhores que comandam os partidos, talvez os caciques, que terão de substituir “os vetos de gaveta à entrada de novos militantes por medo de perder a pequena influência local”. Deu ainda a entender que irá submeter o partido a novas regras de transparência e fiscalização interna. E advogou a abertura das portas aos independentes que tenham qualificações e vontade de servir os portugueses.

[dn.pt, Paula Sá]

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