Comunidade Opinião

Federação da Comunidade Portuguesa na Holanda comemorou 35.o aniversário

 – Passado, presente e futuro –

No passado dia 25 de novembro de 2017 realizou-se o Simpósio Comemorativo dos 35 anos da Federação da Comunidade Portuguesa na Holanda (FCPH) por ocasião do 35.o aniversário desta federação. Neste evento debateu-se o passado, o presente e o futuro do movimento associativo português nos Países Baixos, numa altura em que este enfrenta um novo desafio, que passa por atrair a camada mais jovem para as suas atividades.

A FCPH tem vindo a representar e a apoiar os cerca de 25.000 portugueses residentes nos Países Baixos, tendo sempre estado ligada às diferentes organizações, entre as quais os grupos desportivos, os ranchos folclóricos, bem como as associações.

Participaram neste simpósio os deputados eleitos pelo círculo eleitoral da Europa, Carlos Gonçalves e Paulo Pisco, bem como a Embaixadora de Portugal em Haia, Rosa Batoréu, os Conselheiros das Comunidades Portuguesas (CCP) Alfredo Stoffel e Pedro Rupio, e ainda alguns dirigentes associativos, entre os quais a ex-Conselheira do CCP, Teresa Magno Heimans, presidente da FCPH e grande impulsionadora desta iniciativa.

Leia em seguida o discurso integral do Conselheiro das Comunidades Portuguesas, Alfredo Stoffel, neste simpósio da FCPH:

Exmas Senhoras / Exmos Senhores
Ilustres convidados
Queridos amigos

Permitam-me que começe esta minha intervenção colocando o relacionamento entre Portugal e os Países Baixos num contexto histórico!
Desde o século XII que Portugal e os Países Baixos têm um historial de entreajuda e de relações comerciais. Começou com os cruzados, com a ”Liga Hanseática” e mais tarde, a partir do sec. XVI com o apoio que deram aos expatriados judeus sefarditas. Podemos por isso dizer que, historicamente, os Países Baixos valem como terra de acolhimento para imigrantes portugueses.

 

Assim desde o século XVI com a forçada diáspora luso-judaica, numa altura em que os judeus portugueses, vítimas de intolerância inquisitorial, eram obrigados a converter-se ao catolicismo tornando-se nuns casos cristãos-novos e noutros casos cripto-judeus, em matéria de religião professada.
Ou então, perseguidos, viam-se forçados a abandonar o país e a própria Península Ibérica (que em Hebraico se diz Sefer); daí esse povo ser também conhecido como os sefarditas.
Entre essa gente letrada e culta, por oposição a uma maioria da população católica analfabeta de então, houve sempre grandes expoentes em vários ramos do saber científico, teológico e filosófico. Entre muitas personalidades de relevo, refira-se apenas o grande filósofo Baruch Spinoza, com família natural da Vidigueira, no Baixo Alentejo, e que é estudado universalmente. Muitos judeus portugueses emigraram para a Holanda onde fundaram por volta de 1675 a famosa “Esnoga” (corruptela de sinagoga) em Amsterdão e ainda hoje está aberta na rua Visserplein, perto do centro da cidade. E aí se desenvolveram como uma comunidade judaico-portuguesa-holandesa notável.

A partir dos anos 60 do sec. XX –

A partir dos anos ’60 no século passado, a imigração portuguesa na Holanda conheceu novos picos, por motivos de ordem diversa, desde os económicos até aos de natureza militar, numa altura em que muitos mancebos recusavam fazer a guerra colonial em Angola, Moçambique e na Guiné-Bissau. Desde então, a Holanda foi recebendo levas de trabalhadores portugueses que acabaram por constituir uma comunidade mais ou menos estruturada e contando já hoje com muitos lusodescendentes.

O associativismo, tendo conhecido muitas vicissitudes, atingiu uma relativa estabilidade, existindo hoje mais de uma dezena de associações no país. E é, precisamente, uma Federação da Comunidade Portuguesa na Holanda que orgulhosamente festeja o seu aniversário.
É por esta razão que hoje me encontro aqui como Conselheiro das Comunidades Portuguesas / Conselho Regional da Europa.

Graças ao associativismo, os portugueses não só se entreajudam e reavivam o seu portuguesismo e a sua portugalidade, na vivência da língua e da cultura portuguesas em terras estrangeiras, como dão forte contributo ao desenvolvimento dos países onde residem. Sem embandeirarmos em arco, tudo isto deve ser comemorado e dito com a dignidade e com a consciência de que temos sempre grandes desafios e lutas pela frente.
Há hoje nos liberais Países Baixos, de novo, forças político-partidárias que propalam como pontos fortes de seus programas o racismo, a xenofobia, a homofobia, o ódio e outros aspetos menos felizes e indesejáveis. Neste contexto, costumam ser os trabalhadores imigrados as primeiras vítimas da discriminação, da agressão e das mais variadas injustiças. A união dos trabalhadores deve aqui ser reforçada pelo espírito de associação e de unidade que reina, estamos convictos, no associativismo diaspórico. Ao longo dos anos, a par dos casos de sucesso há também notícias menos agradáveis e que urge corrigir. Trabalham hoje em dia muitos milhares de portugueses no país ( residem 30 – 35.000 portugueses na Holanda?? ) e outros milhares ( aprox. 5.000/a ) procuram anualmente trabalho temporário.

Apraz-nos registar os avanços verificados na modernização do associativismo como é o caso desta Federação, bastante estruturada, e que também funciona com uma plataforma digital na era da globalização, com serviços na área social e jurídica. A nossa comunidade soube ao longo de décadas de vida na Holanda fundar as suas instituições em várias cidades. Cabe aqui referir que só nesta cidade de Amsterdão há pelo menos oito associações (??), privilegiando todas, na sua natureza, alguma característica predominante, seja o aspeto desportivo ou o recreativo, o religioso, o folclórico-cultural, o gastronómico e de convívio, o assistencialismo, seja uma plataforma digital de serviços e de negócios, e assim por diante.

Por parte da SECP-DGACCP, dos Consulados e Embaixada, nem sempre tudo corre pelo melhor na defesa dos nacionais portugueses. Houve uma altura em que para atender 15.000 portugueses, o Consulado só dispunha de 5 funcionários, segundo relato do então Conselheiro José Xavier. Estas situações devem desaparecer, pois, a comunidade portuguesa tem direitos a serem respeitados pelas autoridades, tanto portuguesas como holandesas. Sobretudo no mercado de trabalho é preciso que as inspeções de trabalho dos dois países, a SECP-DGACCP e os serviços diplomáticos estejam atentos a fim de evitar abusos e exploração.

O apoio sob variada forma às associações e seus projetos deve também materializar-se de modo palpável e não ficar apenas pelas promessas não cumpridas, em áreas muito sensíveis, nunca esquecendo a educação dos lusodescendentes, crianças e jovens, futuro da nossa Comunidade.

– O Conselho das Comunidades Portuguesas / Conselho Regional da Europa

O Conselho Regional da Europa reunido em Lisboa em Março de 2017 aprovou um Plano de Acção Comum para o triénio 2017 – 2019 cujos objectivos programáticos pretendem

  • incentivar / promover uma nova relação entre o Estado e as suas Comunidades
  • incentivar / promover uma nova política de Ensino da Língua, Cultura e Identidade
  • promover a participação política e cívica
  • promover a igualdade de direitos sociais e económicos
  • incentivar / promover o potencial económico das comunidades

Estes temas não são novos; os conselheiros antes de mim e todos aqueles que precederam os meus antecessores sabem do que estou a falar. Há um vaivém de governos e de políticos – as Comunidades continuam com muitos problemas para resolver ( … e os políticos vão alternando o seu discurso dependendo se estão com responsabilidades governativas ou se estão na oposição )

– Mas política à parte !!… Estamos aqui por outro motivo!!

Estamos aqui para comemorar 35 anos de trabalho comunitário, de voluntariado, de experiências e de aprendizagens, 35 anos de alegrias e provavelmente de algumas desilusões.
Quando olhamos para trás diremos: “parece que foi ontem” e, na verdade já passou uma vida!…

A comunidade portuguesa na Holanda, o Governo de Portugal, os Países Baixos (Holanda) – como local de acolhimento – deveria agradecer e elogiar o vosso trabalho em prol da nossa integração nesta sociedade, pela dinamização da nossa cultura e dos nossos costumes, pela riqueza cultural que trouxemos para este país – que já por si é multicultural.
– Integração ou Assimilação ? – um tema discutível, mas foi o que foi possivel fazer…

Somos seres carregados de multiculturalidade numa Europa que tarda em configurar-se no respeito crescente dos direitos humanos ( as políticas de alguns países da UE são a prova disso )
Não sei se na Holanda existe o termo “Gastarbeiter” / “trabalhador convidado” – talvez seja um termo típico da língua teutónica; mas se existe, há um pormenor que não foi tido em consideração: os trabalhadores são pessoas e por isso seres sociais. Assim, foram muitos os que mais tarde chamaram as suas familias ou formaram uma nova no país de acolhimento em vez de regressar ao país de origem (o que muitos políticos previam! ). O “imigrante” não regressou e passou a ser um trabalhador permanente, simplesmente quis ficar!

Os portugueses contribuiram para o enrequecimento da Europa Central pelo seu trabalho e pela sua cultura. A Holanda, a Alemanha, o Benelux, tornaram-se em poucos anos países multiculturais, infelizmente voltamos a ouvir vozes da extrema direita (que já tem um palco nos diversos parlamentos ) reivindicando uma “Leitkultur” de má memória.

– Para finalizar ! –

Resta-nos esperar que as autoridades portuguesas se mentalizem que têm de apostar mais nas suas comunidades ( há projectos bastante prometedores )…
Devemos falar do projecto “ Formação de dirigentes associativos “ ( um projecto prometedor mas infelizmente usado com muita falta de tranparência e com intenções político-partidária );
Devemos falar do “Acordo de Cooperação entre o MNE e autarquias nos países de acolhimento. Este projecto considero-o ambicioso e deveras importante para o associativismo; este projecto faz com que as associações estejam como “ponte” entre “cá e lá”…

Os representantes diplomáticos ( que estão aqui para servir as comunidades, respeitando os seus direitos em muitos âmbitos ) devem ser coresponsabilizados de modo a que este projecto seja um sucesso.
Mas o associativismo vai mais além de tudo o que até agora foi dito… Mencionemos a educação, o ensino da língua e da cultura portuguesas, a participação cívica, a “educação” da comunidade no seu desejo de reivindicar o respeito pela identidade cultural e o desejo de não querermos ser “os portugueses lá de fora”.

Os emigrantes não podem continuar a ser vistos como remetentes de divisas e de pessoas que aliviam a pressão no mercado de trabalho interno; as comunidades são bem mais do que isso!!!

Agora é que é mesmo para finalizar !!

É, para mim, um previlégio estar aqui convosco neste evento!

A Federação da Comunidade Portuguesa na Holanda está de parabéns e comemora hoje, oficialmente, o seu 35° aniversário; parabéns aos ”carolas” que não desanimaram, a todos os voluntários que permitiram que hoje pudessemos estar aqui!!

Um bem haja a todos

Alfredo Stoffel

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